A Polônia e o acordo UE-Mercosul: frango contra frango — a visão de quem está dos dois lados do Atlântico
Portugal ocupa uma posição única no debate sobre o acordo UE-Mercosul. De um lado, é membro da União Europeia e tem a sua agricultura — vinho, azeite, cortiça — exposta à concorrência sul-americana. Do outro, mantém laços históricos, culturais e linguísticos com o Brasil, a maior economia do Mercosul. Para Lisboa, este acordo não é apenas comércio: é geopolítica, identidade e pragmatismo.
O acordo foi aprovado no Conselho da UE em 9 de janeiro de 2026 com 21 votos a favor, 5 contra (França, Polônia, Áustria, Hungria, Irlanda) e a abstenção da Bélgica. Portugal votou a favor. A Polônia, contra.
Lula: "momento histórico"
O presidente Lula da Silva celebrou o acordo como um "momento histórico" para o Brasil e para o Mercosul. A Câmara dos Deputados brasileira aprovou o texto, mas no Senado Federal ainda há condições pendentes — incluindo a análise de impacto ambiental e as garantias para setores sensíveis da indústria nacional.
Para o Brasil, os números falam por si. A UE vai eliminar tarifas sobre 95% dos bens brasileiros em até 12 anos. O agronegócio brasileiro — carne bovina, aves, soja, açúcar, café — é o grande beneficiário. A carne bovina brasileira custa em média €3,25/kg, contra €7,28/kg na UE. Essa diferença de preço é o cerne da preocupação europeia.
O frango polaco contra o frango brasileiro
E é aqui que a Polônia entra na equação. A Polônia é o maior produtor de aves de corral da UE, com 2,9 milhões de toneladas anuais. Para o Brasil, o mercado europeu de aves é um alvo estratégico — e o frango polaco é o concorrente direto.
O primeiro-ministro polaco Donald Tusk foi categórico: "nie zaakceptujemy w tej formie" — "não vamos aceitar nesta forma" (Reuters). O candidato à presidência Karol Nawrocki chamou o acordo de "katastrofa" (catástrofe) e classificou as cláusulas de salvaguarda como um "parasol na tsunami" — um guarda-chuva contra um tsunami.
| Indicador | Portugal | Polônia | Brasil |
|---|---|---|---|
| Voto no Conselho (9 jan. 2026) | A favor | Contra | N/A (Mercosul) |
| Comércio bilateral com Mercosul | ~EUR 4.500 M | ~EUR 4.000 M | — |
| Produção de aves (anual) | Pequena | 2,9 Mt (nº 1 UE) | ~14 Mt (nº 1 mundo) |
| Carne bovina — preço médio | ~€6,50/kg | ~€5,80/kg | €3,25/kg (vs. UE €7,28/kg) |
| Principal vulnerabilidade | Vinho, azeite | Avicultura | Acesso ao mercado europeu |
| Comércio bilateral com Brasil | ~EUR 3.800 M | $949 M | — |
O comércio bilateral Polônia-Mercosul é de cerca de EUR 4 mil milhões. As exportações de maquinaria polaca somam EUR 449 milhões, e o intercâmbio Polônia-Brasil atinge $949 milhões. Mas o fator político é mais importante do que os números: a avicultura polaca emprega dezenas de milhares de pessoas em regiões rurais do leste do país, onde o desemprego já é elevado.
O Parlamento Europeu: TJUE e salvaguardas
Em 21 de janeiro de 2026, o Parlamento Europeu votou 334-324-11 para remeter o acordo ao Tribunal de Justiça da UE (TJUE). Uma decisão sem precedentes — nunca um acordo comercial havia sido enviado ao Tribunal. Quase todos os eurodeputados polacos votaram a favor da remissão, num raro consenso transpartidário.
Em 10 de fevereiro de 2026, o PE aprovou por 483-102 o regulamento de salvaguardas agrícolas, com base no artigo 9.3 do acordo (não o artigo 9.2, como por vezes é citado erroneamente). O mecanismo estabelece um limiar de ativação de 5%/5% — se as importações de produtos sensíveis (carne bovina, aves, açúcar, cítricos) subirem 5% na média trienal e os preços caírem 5% abaixo dos níveis domésticos, a UE pode suspender as preferências tarifárias. Estes limiares foram reduzidos do 10%/10% original, representando um endurecimento significativo.
Portugal entre dois mundos
Portugal vê o acordo com uma lente diferente da maioria dos países europeus. O Brasil é o maior parceiro comercial de Portugal fora da UE. Os laços linguísticos e culturais são um ativo económico real — centenas de empresas portuguesas operam no Brasil, desde a construção civil (Mota-Engil) ao retalho (Sonae/Worten) e à banca (BPI/CaixaBank).
Para os exportadores portugueses de vinho e azeite, o acordo abre portas: os arancéis brasileiros sobre vinhos europeus (até 27%) e azeite (até 10%) serão progressivamente eliminados. O vinho do Porto e o vinho verde podem conquistar espaço num mercado de 215 milhões de consumidores.
Mas a agricultura portuguesa também tem preocupações. Os produtores de carne bovina do Alentejo e os olivicultores do interior temem a concorrência de produtos sul-americanos a preços mais baixos. Portugal é um país pequeno — a escala de produção não permite competir em custo.
Grupa Azoty e o Brasil: uma oportunidade polaca inesperada
Nem tudo é negativo para a Polônia. Um dado que raramente aparece no debate: as maçãs polacas não estão ameaçadas pelo acordo. Pelo contrário, o ministro da Agricultura polaco está a negociar para abrir o mercado do Mercosul às maçãs polacas — um setor onde a Polônia é líder europeu.
E há a Grupa Azoty, o segundo maior produtor de fertilizantes da UE. O Brasil é o maior mercado mundial de fertilizantes, importando mais de 85% do que consome. Para a Grupa Azoty, o acordo UE-Mercosul poderia significar acesso preferencial a um mercado de milhares de milhões de dólares — uma oportunidade estratégica que transcende o debate sobre frangos e carne bovina.
O Congresso brasileiro: aprovação com condições
A Câmara dos Deputados do Brasil aprovou o acordo, mas o processo no Senado Federal ainda está em curso. Há condições pendentes — incluindo a avaliação de impactos ambientais, a proteção de setores industriais sensíveis e a compatibilidade com os compromissos climáticos do Brasil sob o Acordo de Paris.
A diplomacia brasileira vê na ratificação rápida uma forma de reafirmar a relevância do Mercosul — especialmente depois do pacto comercial bilateral entre os EUA e a Argentina (5-6 de fevereiro de 2026), que levantou dúvidas sobre a coesão do bloco.
Os eurodeputados portugueses
A maioria dos eurodeputados portugueses alinhou-se com a posição do governo — favorável ao acordo, mas atenta às salvaguardas. Portugal, como país com uma economia aberta e dependente do comércio externo, tende a apoiar acordos de livre comércio. Mas o voto no TJUE mostrou que mesmo os países favoráveis querem garantias jurídicas antes de avançar.
O que vem a seguir
Para Portugal, o acordo UE-Mercosul é mais do que uma questão comercial. É a consolidação de uma ponte transatlântica com raízes de 500 anos. A língua partilhada, a diáspora, as relações empresariais — tudo isso ganha peso económico concreto quando os arancéis caem.
Para a Polônia, a equação é diferente. O frango polaco e o frango brasileiro disputam o mesmo mercado. As salvaguardas do artigo 9.3 oferecem proteção, mas Varsóvia considera-as insuficientes.
Para o Brasil, a mensagem é clara: a Europa precisa de decidir se quer ser parceira ou protecionista. E o tempo não espera — a China e os EUA já estão a bater à porta da América do Sul.
Fontes: Consilium.europa.eu (09.01.2026), europarl.europa.eu (21.01, 10.02.2026), Reuters, Agência Brasil, Valor Económico, Lusa, Jornal de Negócios, Eurostat, GUS (estatísticas polacas). Acordo: Art. 9.3, Art. 23.3.
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